Linha do tempo · com fonte

A Cruz, século a século

Durante quase trezentos anos, os cristãos não desenharam a cruz: ela era uma pena de morte em vigor. Esta linha do tempo conta como o pior instrumento de Roma virou o sinal que abre e fecha o dia de quem crê. E conta do nosso jeito: dizendo, em cada passo, o que é história documentada, o que é tradição recebida e o que é lenda piedosa.

Como ler esta linha — 25 eventos: 19 históricos · 3 tradições · 1 lenda · 2 debates
Histórico

Atestado por documento ou arqueologia.

Tradição

Recebido pela Igreja, sem definição dogmática.

Lenda

Devoção tardia, sem apoio nas fontes antigas.

Debate

Questão acadêmica em aberto.

c. 30
Histórico

A cruz era uma pena infame

A crucificação não era a execução romana comum: era reservada a escravos, piratas e rebeldes. Cícero, diante do Senado, diz que o próprio nome “cruz” deve estar longe não só do corpo dos cidadãos romanos, mas do pensamento, dos olhos e dos ouvidos deles.

Cícero, Pro Rabirio 16 · Dt 21,23 · Gl 3,13
séc. I
Tradição

Pedro é crucificado em Roma

Preso durante a perseguição de Nero, pede que o crucifiquem de cabeça para baixo, por não se julgar digno de morrer como o seu Mestre. Que Pedro morreu mártir em Roma é tradição antiquíssima e universalmente recebida. O detalhe da posição invertida vem de fontes do século II, uma delas apócrifa, e a Igreja nunca o definiu.

Atos de Pedro (apócrifo, séc. II) · Orígenes, em Eusébio, HE III,1
c. 200
Histórico

A cruz aparece primeiro numa piada

No monte Palatino, em Roma, alguém risca na parede uma figura de cabeça de asno pregada numa cruz e escreve, em grego malfeito: “Alexâmeno adora seu deus”. É a mais antiga representação conhecida da crucifixão de Cristo, e foi feita para zombar de um cristão pelas costas.

Grafite de Alexâmeno, Museu Palatino, Roma
c. 200
Histórico

E também escondida dentro de uma palavra

Ao abreviar a palavra grega para cruz, stauros, os copistas sobrepunham as letras tau e rho. O resultado desenha, sem querer e depois de propósito, uma figura pendurada: haste, braços e cabeça em círculo. Os cristãos não desenharam a cruz na parede, mas a desenharam no texto, mais de um século antes de Constantino.

Staurograma nos papiros P45, P66 e P75
312
Histórico

O Chi-Rho vai para o estandarte

Depois da batalha da Ponte Mílvio, Constantino adota no lábaro o monograma que os perseguidos usavam como senha. Do sinal de reconhecimento ao emblema do exército, em uma geração. Lactâncio e Eusébio contam o episódio de maneiras diferentes, e nós assinalamos isso.

Lactâncio, De mortibus persecutorum 44 · Eusébio, Vida de Constantino I,28-31
séc. IV
Tradição

Ninguém mais é crucificado

A crucificação deixa de ser praticada no Império, e a tradição atribui a decisão a Constantino. A datação exata é debatida entre historiadores. No momento em que a pena acaba, a cruz para de ser ameaça presente e começa a poder ser memória.

Autores cristãos posteriores; datação debatida
c. 326
Tradição

Helena escava em Jerusalém

A mãe de Constantino, com mais de setenta anos, viaja à Terra Santa e manda escavar sob o templo pagão erguido no lugar do sepulcro. A viagem é histórica. A atribuição da descoberta do lenho a ela é tradição: o relato mais antigo é de setenta anos depois, e Eusébio, contemporâneo e biógrafo de Constantino, descreve as escavações e não menciona a descoberta.

Grau: tradição amplamente recebida, não dogma
set. 335
Histórico

A madeira é erguida diante do povo

As basílicas do Gólgota e do Sepulcro são dedicadas em Jerusalém, com bispos vindos de todo o Oriente. No dia seguinte, o lenho é elevado para que todos vejam. Erguer no alto é, em latim, exaltatio: a festa de 14 de setembro não celebra uma batalha ganha, celebra uma madeira levantada para ser vista.

Fontes divergem entre 13 e 14 de setembro
c. 380
Histórico

Egéria vê a fila e o guarda

A peregrina descreve a cerimônia da Sexta-feira Santa em Jerusalém, com o lenho apresentado aos fiéis e guardado por diáconos, porque alguém, certa vez, tentara arrancar um pedaço com os dentes. É um detalhe humano demais para ter sido inventado.

Itinerarium Egeriae
395
Histórico

O primeiro relato escrito

Santo Ambrósio conta a descoberta da cruz por Helena no discurso fúnebre do imperador Teodósio. É o registro mais antigo que se conserva, cerca de setenta anos depois do fato. Rufino, Sócrates e Sozomeno contam versões próprias logo depois, e não concordam entre si nos detalhes.

Santo Ambrósio, De obitu Theodosii
614
Histórico

Os persas levam a relíquia

Os sassânidas tomam Jerusalém, saqueiam a cidade e levam o lenho. A humilhação dura catorze anos.

628
Histórico

Heráclio a traz de volta

O imperador derrota os persas e reaveu a relíquia, devolvida em procissão solene a Jerusalém. A cena que a tradição guardou, do imperador que não consegue passar da porta com todos os ornamentos e entra descalço depois de tirar o manto, a coroa e os sapatos, é tradição piedosa. Não é necessária para a festa, e é uma bela imagem: quem levanta a cruz tem de se abaixar.

Devolução datada entre 629 e 630, conforme a fonte
692
Histórico

A Igreja explica por que a figura humana

Até então, era comum representar um cordeiro no lugar de Cristo. O cânon 82 do Concílio in Trullo reconhece a beleza da figura e pede outra coisa: que se represente Cristo em forma humana, para que se contemple a profundidade do rebaixamento do Verbo. É um concílio oriental, cujos cânones a Igreja latina nunca recebeu integralmente, mas o argumento dele é o argumento católico até hoje.

Concílio in Trullo (Quinissexto), Constantinopla, cânon 82
787
Histórico

A honra passa ao original

Niceia II fixa o princípio que sustenta toda a arte sacra: a honra prestada à imagem passa a quem ela representa. Não se venera a madeira; venera-se quem esteve pregado nela.

Niceia II · Catecismo §§2131-2132
séc. VIII-XII
Debate

As cruzes de pedra da Irlanda

Monges irlandeses esculpem monumentos de vários metros, cobertos de cenas bíblicas, plantados ao ar livre: marco de terreno consagrado, ponto de pregação e livro para quem não sabia ler. A origem do anel é debate acadêmico aberto, com três hipóteses sérias. A versão de que São Patrício teria sobreposto a cruz a um símbolo solar pagão é lenda tardia, sem apoio nas fontes antigas.

Monasterboice, Clonmacnoise e Kells · cruz de Muiredach, c. séc. X
séc. XI
Histórico

Enfermeiros antes de soldados

Nasce em Jerusalém a Ordem de São João, para cuidar dos peregrinos doentes. O nome pelo qual ficaram conhecidos, Hospitalários, vem de hospitale, a casa que acolhe. A vocação militar veio depois, e a de cuidar dos doentes nunca foi abandonada: a mesma cruz de oito pontas está hoje nas ambulâncias da Ordem de Malta.

Ordem Soberana e Militar de Malta
1215
Debate

Francisco assina com uma letra

O Tau é a última letra do alfabeto hebraico e tinha o formato da cruz. Francisco de Assis o usava como assinatura, e há prova material: o bilhete que escreveu de próprio punho para Frei Leão, conservado em Assis, traz um Tau desenhado por ele. A explicação mais repetida liga essa devoção ao sermão de Inocêncio III na abertura do Concílio de Latrão IV, e ela é plausível e muito difundida, mas não temos documento que a feche.

Bilhete a Frei Leão, Sacro Convento de Assis
c. 1231
Lenda

Os anjos de Caravaca

A cruz de dois travessões de Caravaca de la Cruz é das mais usadas na proteção de casa no Brasil. O episódio dos anjos que teriam trazido a cruz é lenda piedosa local, sem documentação contemporânea, e o relato aparece por escrito bem depois. O que é histórico é o resto: existe ali uma relíquia venerada há séculos, e a devoção atravessou o Atlântico.

Sem documentação contemporânea
1530
Histórico

Uma ilha dá nome ao desenho

Expulsos da Terra Santa e depois de Rodes, os cavaleiros recebem Malta, onde ficam até 1798. As oito pontas são lidas tradicionalmente como as oito bem-aventuranças, leitura amplamente recebida e que a Igreja não definiu. O oito, na arte cristã, é o oitavo dia: o dia depois do fim, o dia que não acaba.

Mt 5,3-10 · Epístola de Barnabé 15 · São Justino, Diálogo 41
1731
Histórico

A Via Sacra ganha catorze estações

Clemente XII fixa o número e estende a devoção a todas as igrejas. Das catorze, algumas não estão nos Evangelhos: as três quedas, o encontro com a Mãe e a Verônica vêm da tradição e da piedade popular. Isso não as invalida, e nós não as retiramos.

Antes: Inocêncio XI (1686), Inocêncio XII (1694), Bento XIII (1726)
1880
Histórico

A medalha que você tem no pescoço

Existem medalhas de São Bento desde pelo menos o século XVII, mas o desenho que quase todo mundo usa hoje é o da medalha jubilar cunhada em Montecassino para os 1400 anos do nascimento do santo, aprovada por Leão XIII. É por isso que está escrito nela EX SM CASINO MDCCCLXXX: a data que você carrega não é a de São Bento, é a do aniversário dele.

Vinte e quatro letras, quatro frases em latim
1940-1949
Histórico

Escavam debaixo do altar

As escavações sob a Basílica de São Pedro trazem à luz uma necrópole romana e, sob o altar-mor, um monumento funerário do século II. Em 1968, Paulo VI anuncia que os ossos ali encontrados foram identificados de modo, nas palavras dele, convincente. A basílica não foi construída num lugar escolhido por conveniência: foi construída em cima de um túmulo.

Trophaeum de Gaio, mencionado por Eusébio
1960
Histórico

Uma festa da cruz é aposentada

Até esse ano o calendário romano tinha também a Invenção da Santa Cruz, em 3 de maio. “Invenção” ali é o latim inventio, que quer dizer achado, e não invencionice. A reforma concentrou tudo em 14 de setembro. Se você encontrar 3 de maio marcado num missal antigo da família, agora sabe por quê.

Reforma do calendário romano
1991
Histórico

Uma Via Sacra só com o que está escrito

São João Paulo II celebra no Coliseu, pela primeira vez, a Via Sacra bíblica: catorze estações todas atestadas na Escritura. Ela começa no Getsêmani, e não na condenação. As duas são legítimas, e agora você sabe que a segunda existe e tem endereço.

Sexta-feira Santa, Coliseu, Roma
1998
Histórico

Cinco cidades no mundo, e uma é por causa de uma cruz

João Paulo II concede a Caravaca de la Cruz o jubileu em perpetuidade, a cada sete anos. É uma das cinco cidades do mundo com esse privilégio, ao lado de Jerusalém, Roma, Santiago de Compostela e Santo Toribio de Liébana. O primeiro ano jubilar foi em 2003.

Capa do Volume III, As Cruzes
Volume III · As Cruzes

Cada linha desta página rende um capítulo inteiro

As histórias, as formas e o que cada cruz quer dizer: a de São Bento letra por letra, a de Caravaca, a de Malta, a Tau de São Francisco. Tudo com a fonte no rodapé, no acabamento de manuscrito iluminado da casa.

A outra linha da casa: os Milagres de Jesus, um a um

Ver os milagres